Já estamos no segundo semestre de 2011, mas venho aqui insistir em um trabalho do ano que se passou. Em 2010 pude conhecer Gil Scott-Heron de uma forma diferente do que costumo fazer, pelo fim. Talvez pela ironia da idade, das minhas relações sociais, do destino, para quem acredita nele, ou de qualquer outra dessas coisas da vida, nunca havia ouvido falar de Gil Scott-Heron e ao invés de buscar ouvir seus primeiros passos no mundo da música, encarei despretensioso o que viria ser o seu disco de despedida, I’m new here.
O resultado desta minha experiência foi incrivelmente feliz. Este álbum de música falada tem o poder de fazer qualquer pessoa pensar a vida e suas visões de mundo. E talvez, o mais curioso dessa fantástica atmosfera que envolve a obra, é que Gil parecia saber que sua hora chegaria em breve. Já que seu último trabalho de estúdio fora lançado em 94, com o cd Spirits, era seu dever deixar que sua voz novamente encontrasse o microfone. Logo, era de se imaginar que Gil, crítico fervoroso da superficialidade dos meios de comunicação, consumismo, racismo e outras coisas mais, pudesse então em I’m New Here, colocar a boca no mundo e debater sobre as mudanças neste período em que esteve fora dos holofotes.
Mas não, esse agrupado de 15 faixas soa muito mais como necessidade do que oportunidade ou até mesmo provação. Já na capa é possível entender o cenário e a intenção, nela Gil aparece tranquilo dando o seu último trago musical. O cansado Scott não precisava se reposicionar sobre nada e atua neste último álbum com apenas um objetivo: ficar bem consigo no intuito de descansar em paz.
I’m New Here nada mais é do que uma autobiografia em que o velho negro que vos canta, agradece tudo e todos os que o ajudaram a criar sua identidade e fizeram ele se tornar o que ele foi enquanto esteve entre nós. Logo na primeira faixa, On Coming From a Broken Home Part 1, Gil dá o tom da obra e entoa o agradecimento dedicando o disco a sua avó, mulher a quem ele diz dever tudo o que foi. No decorrer de todo o álbum, Gil se da o direito de dar alguns “depoimentos”, todos muito interessantes e que admitem que até os piores e indesejáveis traços de sua personalidade são partes indispensáveis da sua formação e identidade.
“She had more than the five senses, she knew more than books could teach and raised everyone she touched just a little bit higher. And all around her there was a natural sense as though she sensed what the stars say what the birds say, what the wind and the clouds say. A sensual soul and self that African sense. And she raised me like she raised 4 of her own and I was hurt and scared and shocked when lily Scott left suddenly one night. And they sent a limousine from heaven to take her to god,if there is one. So I knew she had gone. And I came from a broken home.” (On Coming From a Broken Home, Part 1)
Destaco três faixas que mais me chamaram atenção no álbum, são elas: I’m New Here, Where Did the Night Go e New York Is Killing Me
A música que dá nome ao cd aparece na terceira faixa, uma preciosidade em forma de folk de autoria do cantor Bill Callahan e que empresta o poema da sua letra para a biografia de Scott (trecho preferido: “No matter how far wrong you’ve gone, you can always turn around”). Situando o meio da obra, Where Did the Night Go, traz a insônia, a solidão e a incapacidade de se comunicar com uma pessoa amada.Por fim, a última das faixas que julgo cruciais para o desfecho do disco é New York Is Killing Me, em que Gil Scott confessa o desgosto pela cidade que passou grande parte da sua vida e que o levou a uma vida alienante por muito tempo. Nesta faixa fica clara a saudade que sentia do seu antigo lar, em Tennessee, que foi obrigado a deixar depois do falecimento de sua avó Lily Scott (trecho: “Eight million people, and I didn’t have a single friend”).
São menos de 30 minutos de material que não conseguiria descrever, tamanha grandeza, mesmo se pudesse teclar centenas de páginas. Em I’m New Here, Gil Scott ainda encontrou tempo e espaço para se afirmar como um grande interprete cultuando três gerações com interpretações fantásticas: Me And The Devil do respeitado bluesman Robert Johnson, o clássico da Bobby “Blue” Bland, I’ll Take Care of You e a incrível interpretação de I’m New Here, música do Bill Callahan (Smog). Uma obra que conta a história de uma vida e que descreve a personalidade de um homem através de 15 faixas musicais, um álbum de adeus de um homem que só precisava dizer suas últimas palavras.
Gil Scott subiu para o andar de cima no dia 27 de maio deste ano após voltar de uma viagem à Europa. Scott tinha 62 anos de idade e faleceu cerca de um ano após o lançamento deste álbum.
Ouça I’m new here e Where Did The Night Go, terceira e oitava faixa respectivamente:

